Rádio Chapada



quinta-feira, 15 de março de 2012

Marcos Salmo - Um comunista na gestão da cultura do Assaré


Foi no movimento estudantil que Marcos Salmo iniciou a sua militância política e cultural na cidade de Patativa do Assaré. Uma trajetória invejável, faz desde jovem de apenas 28 anos uma referência para a gestão da cultua no Estado do Ceará. Ele afirma que a forma mais clara para entender a relação de política x arte são as obras o Patativa do Assaré, a estética dos seus versos são obra primas da literatura brasileira, as caídas de versos, a metrificação são perfeitas, e a forma como usa as palavras tornam os seus poemas ainda mais belo e o seu conteúdo é um verdadeiro manifesto em defesa do socialismo

Alexandre Lucas - Quem é Marcos Salmo?

Marcos Salmo - “Sou de uma terra / Que o povo padece / Mas nunca Esmorece / Procura vencer”. Chamo-me Marcos Salmo Lima Barreto, tenho 28 anos, e sou da terra onde em cada galho versos se mechem, Assaré – CE. Sou filho da professora de matemática Sonia Lima, e do desenhista arquitetônico Carlos Barreto, sou filho mais velhos de três irmãos, Carla Wilna e Marcio Clayton, sou casado com Cidinha Oliveira (28). Estou graduando em Administração Pública, na Universidade Federal do Ceará, Campus Cariri. E admirador da obra, história e pensamento de: Patativa do Assaré, Che Guevara, Luiz Carlos Prestes, Renato Russo, Cazuza, Raul Seixas, Olga Benário . E militante político em defesa do socialismo filiado a um partido que acredito que as suas idéias poderão mudar o Brasil, PCdoB.

Alexandre Lucas - Quando teve início sua atuação na área da arte e da cultura?



Marcos Salmo - Comecei a minha militância na cultura, na época do movimento estudantil quando encabecei projetos culturais na escola, de lá para cá participei de diferentes grupos artísticos como o grupo de Teatro Aqui Tem Coisa, com encenações da Paixão de Cristo, até que junto com outros três amigos, Felipe Lira, Wagner Sales e Eugenio Oliveira, criamos a quadrilha junina Arraiá do Patativa, que agregou diversos artistas da cidade, que culminou na criação da Fundação Balceiro de Cultura Popular, uma instituição cultural que tem por objetivo a preservação e difusão da cultura popular de Assaré, e tem se consolidado como um espaço de produção cultural e formação cidadã. Graças aos trabalhos desenvolvidos ao longo dos anos em 2005 fui diretor de cultura do município, em 2007 coordenador de cultura popular e em 2009 assumi a pasta da Secretaria Municipal da Cultura, Turismo, Desporto e Lazer. O imaginário popular do povo nordestino é uma das grandes fontes inspiradoras das minhas atividades. Sempre fiz cultura em defesa do social e da diversidade cultural de Assaré e na busca pela preservação, valorização e difusão da vida e obra do poeta Patativa do Assaré.

Alexandre Lucas – fale da sua trajetória:

Marcos Salmo - Camarada falar da minha trajetória de vida as pessoas não acreditam muito, pois sempre busquei dar o melhor do meu trabalho, mas posso afirmar que sempre fui um militante em defesa da coletividade e socialismo, em minha época estudantil de nível médio fui um dos lideres da minha geração, estive Presidente do Grêmio Estudantil da Escola Moacir Mota, Vice – Presidente do Grêmio Estudantil da Escola Raul Onofre, ajudei na criação da União dos Estudantes Assareense, e ainda participei dos primeiros encontros e debates sobre a União da Juventude Socialista em Assaré, quando acabei tendo o primeiro contato com você camarada Alexandre, através do Prof. Tico Melo. Montar uma rádio comunicadora em um dia, levantar greve para melhorias de infra – estrutura para feira de ciências, organização de atividades esportivas e culturais foram os embriões desse processo de luta em defesa dos nossos ideais. Mas nessa vida já tive oportunidade de aprender com muitas das coisas que fiz, tive uma relação de agricultor com a terra, tentei deixar o Cariri e meu Assaré indo morar em Fortaleza, atuei na construção civil como operário, fui professor de matemática e ciências no ensino fundamental. No que fiz sempre busquei fazer com perfeição. Eu atuei na defesa dos interesses culturais dos assareenses, acabei me tornando um dos articuladores da juventude local. Fiz parte dos principais grupos sociais da cidade. Como jovens da igreja católica Mensageiros da Fé, sou sócio fundador da Fundação Balceiro de Cultura Popular, sócio da Fundação Memorial Patativa do Assaré, sócio do Instituto o Canto do Patativa, pertenço aos quadros da Academia de Letras e Literatura Patativa do Assaré, colaborei com projetos de geração de trabalho e renda para as comunidades rurais, fui um dos coordenadores da criação e formatação do Plano Diretor Participativo, essa e muitas outras atividades e projetos me fizeram chegar a gestão pública. Essas ações me fizeram ampliar a atuação, pois hoje assumi a vice-presidência da Federação das Quadrilhas Juninas do Ceará, entidade que representa os grupos de quadrilhas juninas do Estado e também compus a diretoria do Conselho de Dirigentes Municipais da Cultura do Ceará, entidade representativa dos gestores público da cultura. Em 2009 ingressei no Partido Comunista do Brasil – PC do B a convite de Norma Paula e do Deputado Lula Morais. Em 2011 passei a integrar a diretoria executiva do partido em Assaré.

Alexandre Lucas – Como você avalia as políticas públicas para a cultura no Brasil após o Governo Lula?


Marcos Salmo - Se fizermos uma analise das políticas públicas para a cultura no Brasil a partir dos governos ditatorial e o Neo-Liberal que o Brasil sofreu o governo Lula foi uma revolução para o Brasil. A cultura não era entendida com uma dimensão política importante para o desenvolvimento da nação. No governo Lula tivemos uma democratização de acesso aos recursos públicos, mesmo o Nordeste ficando com a menor fatia, em detrimento ao favorecimento do eixo Rio – São Paulo. O Brasil pode mostrar um pouco mais da sua diversidade, ciganos, hip-hop, culturas populares, artes gráficas etc, começaram a ganhar corpo no cenário nacional. Outro fator bastante positivo nas políticas de cultura no governo do ex-presidente Lula, foi a abertura de espaços para debates com artistas populares, instituições culturais, produtores, comunidades, enfim... Essas conferências, encontros foram importantes para ampliar o entendimento de que a cultura deve ser prioridade, que deve deixar de ser o menor orçamento da União, importante para construir os marcos legais da cultura. Divido o Ministério em três épocas, a primeira com o Gil, que interiorizou o acesso aos recursos e fomentos a cultura, a valorização e reconhecimento da diversidade brasileira e participação social; Com o Juca estávamos caminhando para a aprovação das leis da cultura, como Vale Cultura, Sistema Nacional da Cultura, Cultura como direito social, etc. Ele estava em um processo de articulação com Câmara e Senado que deixou os municípios esperançosos, mas isso foi ceifado. A terceira e última fase já deixa a faixa dos 08 anos do Lula e nos primeiros da Dilma, temos uma Ministra que mudou o pensamento dos direitos autorais, valorizando o ECAD, que não possui governabilidade dentro do Minc e ainda não mostrou a que veio, a não ser responder notas de jornais que a criticam. No momento agora a presidenta Dilma precisa repensar a sua gestora.


Alexandre Lucas – Como você avalia as políticas públicas para cultura no Estado do Ceará?


Marcos Salmo - Desde a época da Claudia Leitão virou moda, em virtude da Lei do SIEC , a política de Editais, e a garantia de recursos de 50% interior e 50% capital isso de uma certa forma foi muito bom para democratizar o acesso aos recursos públicos para apoiar projetos em diferentes linguagens artísticas isso é muito bom. O que eu penso sobre a cultura no Ceará se resume em dois pontos. O Primeiro é que entre a Claudia Leitão, Auto Filho e Professor Pinheiro, já tivemos vários encontros, alguns com a mesma finalidade apenas com nomenclaturas diferentes, mas tivemos, Plano do Araripe, Plano Estadual para dois anos, Constituinte da Cultura, Duas conferencias estaduais e diversos encontros regionais, e conferencias municipais e setoriais. Desses encontros foram retirados propostas diversas, e nós ainda não temos um Plano Decenal da Cultura para o Ceará. Nem mesmo o processo de adesão do Estado ao Sistema Nacional não foi concretizado, até o dia 13/02 o status que estava no Minc era: 03 - Autorizado o encaminhamento do acordo / assinatura do governador (email) em 01/12/11; e dos 184 municípios do Ceará apenas 72 já aderiram ao Sistema Nacional. Por isso precisamos avançar na gestão pública na cultura no Ceará. Outra coisa que me intriga é que os recursos dos editais estão congelados, e não recebem aumentos significativos.
Preciso destacar projetos interessantes do Ceará como os Agentes de Leitura, os Pontos de Cultura, A quantidade de bibliotecas e livros espalhados pelo Ceará. Mas ao mesmo tempo acho que o Ceará precisa retornar a vanguarda da cultura no Brasil, está na hora do Estado comprometer – se e comprometer os municípios, existem muitos programas e projetos que poderiam ser desenvolvidos fundo a fundo, até mesmo para fazerem com que os municípios façam funcionar de fato e de direito os seus fundos municipais de cultura.

Alexandre Lucas – Os Pontos de Cultura são um avanço paras as discussões sobre políticas para cultura nos movimentos sociais?


Marcos Salmo - Sim. O espaço do fazer cultura nos pontos de cultura tem se mostrado uma forte ferramenta de transformação social. Eles fortaleceram as ações dos movimentos sociais que atuam com cultura, pois a essência do dessa ação é oferecer mecanismos para o fazer artístico e cultural nas comunidades. Outro ponto importante dos pontos de cultura é a idéia de empoderamento das comunidades e artistas, as trocas de conhecimentos possibilitaram a formação de uma comunidade mais politizada, critica e protagonista de suas ações. Para mim os pontos de cultura foram à grande mola propulsora do governo Lula nas suas políticas publicas, todo o programa Cultura Viva, encabeçado e concebido pelo grande Célio Turino, é uma ação eficiente que precisa deixar de ser uma política de governo e passar a ser uma política de Estado. Artistas, produtores, grupos, manifestações culturais, linguagens artísticas, gestores e comunidades precisam permanecer nessa luta viva e ativa, os pontos é uma forma democrática de garantir acesso e permitir que as comunidades se reconheçam enquanto identidade cultural e o melhor de tudo é o espaço de transformação social.


Alexandre Lucas – Como vem sendo desenvolvidas ações na Secretaria de Cultura do Assaré?


Marcos Salmo –
Na da Secretaria Municipal da Cultura de Assaré temos desenvolvidos projetos que possam permitir a construção de uma identidade cidadã voltada para o reconhecimento e apropriação dos valores culturais. Muitos projetos importantes vêm sendo desenvolvidos para atender principalmente a comunidade rural do município. Outros projetos importantes para o município foram o restauro da casa do poeta Patativa do Assaré, a construção da Biblioteca Pública Municipal, a ampliação e climatização do auditório D. Belinha Cidrão, projeto de incentivo a leitura e de formação musical na zona rural, valorização dos Mestres da Cultura Popular, a implantação do Núcleo de Estudos Teatrais – NET, além de diversos projetos de inclusão social, preservação e difusão cultural, dentre outros.


Alexandre Lucas – Quais os desafios?


Marcos Salmo - O desafio de uma política de cultura local é de aumentar as opções culturais de seus habitantes, incentivando a preservação de sua cultura, difusão e promoção dela, mantendo sempre as fronteiras abertas. Mas isso só será possível quando os municípios tiverem os seus sistemas municipais e fundos municipais da cultura funcionando efetivamente, para que os prefeitos entendam a importância de se conveniar com artistas e instituições culturais, dando uma vida mais sólida e orgânica para a cultura nos municípios. Outro gargalo importante nesse processo é a formação, do ponto de vista da gestão, para que artistas e grupos aprendam a lidar com recursos públicos. Levando em conta também que a burocracia deve repensar as suas ferramentas demasiadamente exageradas, e que vem usando a prevenção da corrupção como desculpa para tanta burocracia, mas fazendo um parêntese é preciso dar autonomia ao controle social por parte da população.


Alexandre Lucas – Como você ver a relação entre arte e política?

Marcos Salmo - Entendo Arte como fazer cultural de diferentes linguagens artísticas, uma dimensão simbólica da criatividade, que tem uma ação direta no processo de formação de qualquer cidadão que assiste, visita, produz e usufrui da arte. Aristóteles já dizia que todo ser humano é por natureza político, entretanto eu acredito que muitas não se apropriam desse conceito, chegando a cometer um erro idiota de afirmar que não gosta de política e deseja manter distância. Sendo a arte uma dimensão simbólica da criatividade e formação cidadã e a política ser por natureza inerente ao homem, os dois precisam andar juntos. Temos visto muita arte, mas dissociada da política e vice-versa. A arte tem a função fundamental de ser um mecanismo em defesa das questões sociais, das pessoas excluídas, daqueles que possuem o seu direito de cidadão suprimido. A forma mais clara que posso entender essa relação de política x arte são as obras o Patativa do Assaré, a estética dos seus versos são obra primas da literatura brasileira, as caídas de versos, a metrificação são perfeitas, e a forma como usa as palavras tornam os seus poemas ainda mais belo, mas o seu conteúdo é um verdadeiro manifesto em defesa do socialismo. Arte e política precisam andar juntos na luta contra o capitalismo, a massificação da cultura através da mídia comprada. É interessante que os artistas entendam a função cultural, social, educacional e política que a arte tem sobre a sociedade, esse pode ser o meio para que ocorram as próximas revoluções, afinal de contas as grandes lutas pela democracia e liberdade, tiveram artistas e intelectuais na vanguarda dos movimentos libertadores.

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